"Ela era bela e era boa.
Ela era doce e era triste.
E morreram da mesma dor.
Perdoai-os,
Perdoai-os,
Perdoai-os Senhor!"
Canção dos Amantes Mortos, Pablo Neruda.
Chego em casa, segunda-feira. Visto vários agasalhos, semana de frio no Rio de Janeiro. Mamãe dorme a sagrada cesta, diz que é para manter-se conservada, tem horror à velhice. Brigou com Rui ontem, briga séria, ouvia-se os gritos da rua, fui embora. Sempre acontece, ele já mudou e voltou umas cinco vezes e, ela sempre o aceita de volta, de pernas abertas e comida na mesa. Perceba que a crueldade não é minha, conto a história de acordo com os fatos, essa é a nossa vida, e é assim que ela acontece. Um ciclo vicioso de desgaste físico e mental. Às vezes penso, como seria se papai continuasse conosco? Pior, certamente, o filho-da-puta fez de tudo para que ela perdesse o bebê quando estava grávida de mim, até espancá-la, mas eu tinha que nascer, viriam (e vieram) outros filhos-da-puta para sugar todas as qualidades que ela poderia ter e, partir. Hoje ela não trabalha, todos os projetos que pensou para o futuro foram roubados pelos homens que passaram por ela, quando os conhecia eram pessoas perdidas sem saber o que fazer da vida; quando partiam, eram pessoas bem-resolvidas com um futuro promissor. E ela? Lamentava-se, mas que tonta! Não havia tarja preta que trouxesse de volta o meu futuro.
Mamãe tem o exercício diário de perdir perdão todas as manhãs, desde que eu nasci, ela me pede perdão por ter deixado tudo acontecer dessa maneira. Não peça perdão, mãe, não vou te abandonar. À essa altura, já não importa mais se Rui vai deixá-la na merda como todos os outros ou não, seu maior medo é que eu a deixe, isto ela evita até em pensamento; resta saber quanto tempo mais vou aguentar ficar aqui, ontem foi a primeira vez que saí no meio de uma briga, fui emmbora e só voltei hoje, ela deve ter ficado assustada, mas eu voltei, mãe, estou aqui. Vou até seu quarto, continua dormindo, beijo sua testa rígida, pego suas mãos geladas, troco suas roupas sujas, cubro seu corpo e, espero Rui chegar, ele saberá o que fazer.

3 comentários:
superou-se! muito bom. mas não sei porque eu não consigo dizer algo não-medíocre no seu blog! só sei que gostei muito do texto, embora quisesse lhe dizer algo mais. para continuar medíocre: acho que foi o que eu mais gostei. não digo melhor porque não posso classificar seus textos em melhores e piores, não me vejo capaz e nem acho que seja algo possível de se fazer [pra qualquer].
acho impressionante a facilidade que seus textos tem de prender a atenção e a potencialidade de fazer-me entregar ao lê-los
(erros de concordancia a parte)
gostei muito do texto duda
beijos
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